Off Road em família: como estimular os filhos a praticarem o esporte

Off Road em família: como estimular os filhos a praticarem o esporte

Desde que os smartphones e a banda larga se popularizaram no Brasil junto com os modernos consoles de videogame, temos observado um rápido insulamento das pessoas em seus universos digitais.

Não me refiro apenas aos mais jovens, que naturalmente têm uma tendência em adotarem com rapidez e veemência tudo que relacione-se à tecnologia, mas também, em relação aos mais velhos, que mesmo ao chegarem em casa após um dia de trabalho, dobram seus pescoços sobre as telas de seus aparelhos em busca das “novidades”, geralmente encontradas nas redes sociais e nos grupos de Whatsapp.

Este voluntário isolamento tem distanciado pais e filhos do diálogo, uma vez que até mesmo as refeições familiares à mesa tornando-se démodé em função dos horários mesclados e agitados das famílias modernas e seus múltiplos compromissos.

Desta maneira, não é de se estranhar que muitos pais descubram, assustados, maus comportamentos dos filhos na escola ou na sociedade, afinal, quando o diálogo desaparece, abre-se a porta para as surpresas de sorte adversa.

Assim, é muito importante que os pais estejam empenhados em desenvolver atividades que sejam capazes de reconectar estes laços ou que impeçam que amplie-se a distância que os separa de seus filhos.

Neste sentido, o esporte pode aparecer como uma grande aliada, afinal, este é um universo onde a partilha, o diálogo, o suporte emocional e a partilha de descobertas, conquistas e dificuldades são sempre presentes.E uma das vertentes esportivas que tem a possibilidade de proporcionar isso é o motociclismo off-road, afinal, as experiências vividas em uma trilha ou pista geram histórias que passam a gerar conexão entre aqueles que o praticam.

Off road em família desde pequeno

Off road em família desde pequeno

Jan Terwak relembra-se que ainda criança, sonhava com a possibilidade de, um dia, poder imitar o pai, que aos finais de semana, saía para fazer trilha com os amigos.

“Meu pai trabalhava na Honda, eu quando eu tinha uns 3, 4 anos, o via saindo para andar de moto e sempre desejava um dia ir com ele. Quando eu tinha uns 8 anos, ele apareceu em casa com duas motinhos de frota da Honda para passarmos um mês com elas”, recorda-se Jan. “Aquilo foi mágico e fiquei as férias inteiras com elas e foi com elas que comecei a fazer trilha”, acrescenta.

A partir de então, José Luiz Terwak, pai de Jan, passou a orientá-lo sobre os conceitos básicos de pilotagem que lhe proporcionaram evoluir rapidamente no off-road. 

Dois anos mais tarde, Jan ganhou de presente do pai uma XR 200, que lhe proporcionou um novo salto. “Aquilo estava no meu sangue e foi com esta moto que passei a acompanhá-lo, de fato, nas trilhas, junto com o filho de um amigo dele, o Mateus, que tinha mais ou menos a mesma idade que eu. De repente, eu estava realizando aquele meu sonho de infância, trilhar ao lado do meu pai e de seus amigos e aquilo foi mágico para mim”, emociona-se.

Depois das trilhas, Jan Terwak migrou para as pistas de motocross, onde evoluiu muito sua pilotagem e hoje administra, ao lado do pai, uma empresa que oferece passeios off-road e cursos de pilotagem. “É um grande prazer para mim trabalhar ao lado do meu pai, um cara que sempre admirei e de quem o off-road me permitiu estar sempre próximo”, concluiu.

Cuidado com as cobranças

Mauro Faucon, o Maurinho, está envolvido com motocicletas desde meados da década de 80. Ele começou como lavador de motos para buscar ter o seu próprio dinheiro e desde então, nunca mais deixou de evoluir: foi mecânico da famosa equipe de motocross da Amparo Motos, que tinha em seu time pilotos como os norte-americanos Rodney Smith e Kenny Keylon e com o fim da equipe, abriu sua própria oficina, a RM Motos, junto com o irmão Márcio.

Hoje, sua empresa é uma referência em manutenção e preparação de motos de competição, desenvolvendo, também, cursos de pilotagem focados em motocross, uma vez que Maurinho é um dos poucos instrutores credenciados pela FIM (Federação Internacional de Motociclismo).

Pai do Murilo, de 7 anos, Maurinho explica que tanto a moto como a bicicleta, têm de ser um brinquedo que a criança curta. “Não podemos forçar qualquer tipo de situação; precisamos deixá-los com a liberdade de curtirem a brincadeira, sem cobranças e quando vou para a pista, eu lhe pergunto se quer ir e quando ele quer, eu o levo. Eu o deixo à vontade para andar com a moto, com a bicicleta ou com o quadriciclo e a única coisa que cobro dele é para que tenha cuidado e mantenha o posicionamento correto quando estiver em cima da moto”, explica.

Ele acrescenta que o esporte, além de promover integração entre pais e filhos, tem também caráter educativo. “O esporte é muito sadio, pois educa, faz com que você aprenda a ganhar e perder, respeitar seus adversários, ter método e disciplina, então, o esporte é muito importante para a formação do ser humano e vejo que no caso do Murilo, isso já está dando resultados”, afirma.

“Eu acho super legal que ele ande de moto comigo, sinto um prazer enorme em vê-lo andando de moto e se ele desejar seguir andando vai ajudá-lo muito, pois outro fator que o esporte traz são as amizades e hoje somos rodeados de pessoas de bem e eu torço para que ele continue me fazendo companhia, porque ter a companhia dos filhos em qualquer coisa é muito bacana”, conclui.

De pai para enteada

De pai para enteada

Movido pela pura paixão pelo off-road, há 13 anos Tiago Lopes decidiu começar um site para falar sobre este universo. Assim nasceu o Show Radical, atualmente, um dos mais relevantes portais do segmento.

Apesar de ser um fã declarado de motocross e às vésperas de tornar-se pai mais uma vez, Tiago Lopes procura abrir espaços em sua atribulada agenda para fazer trilha com sua enteada.

“Eu tenho uma filha que não demonstra muito interesse por andar de moto; ela demonstra carinho pelo meu trabalho, mas não revela gosto por andar de moto, mas quem tomou este lugar foi minha enteada, de 11 anos: comprei uma moto de 100 cilindradas para ela, montei um kit de equipamentos de proteção e hoje ela me acompanha nos passeios e até mesmo, encarar uma pista de motocross com muita coragem”, orgulha-se.

Mas a falta de interesse de sua filha, não significa que ela não demonstre vontade de andar de moto. “Quando queremos fazer um passeio a três, minha filha vai no tanque da minha moto e minha enteada vai tocando a mini moto e agora, com meu filho chegando, espero que ele tome gosto pelo esporte”, revela Tiago.

Lembranças e lições

Leonardo “Corrosivo” Tavares é um dos mais entusiasmados incentivadores do off-road em nosso país. Jornalista e fotógrafo especializado em motos e membro ativo do TCMG (Trail Clube Minas Gerais), Leo Corrosivo já fez bastante trilha com seus filhos.

Tudo começou quando o mais velho, Bruno, manifestou desejo de começar a fazer trilha junto com o pai. “Na época estava mais à frente das provas e ele se espelhava muito em mim”, relembra. “Sempre me acompanhando na corrida e nos eventos, mostrou interesse em aprender rodar de moto, mas como na época não havia muitas opções de motos para crianças, acabei comprando uma Yamaha XTZ 125 adaptada”, explica. “Sempre que possível, a gente saía pelas trilhas da região de Betim para uma trilha”, recorda-se.

À medida em que evoluiu sua pilotagem, Bruno passou a ser levado pelo pai para as primeiras competições de cross country e veloterra, período em que o filho mais novo, Gabriel, passou também a se interessar pela prática do off-road, por observar o que faziam o pai e o irmão. 

“O Gabriel na época demonstrou muito talento e comecei incentivá-lo cada vez mais cedo a competir”, revela, entretanto, hoje, faz quatro anos que pai e filhos pararam de andar de moto juntos, devido aos compromissos escolares de cada um, mas Leo Corrosivo carrega memórias e ensinamentos valiosos daqueles tempos.

“Tivemos excelentes momentos juntos durante anos rodando de moto por vários cantos do Brasil. O que pude vivenciar, é que quando a família está junta podemos aprender uns com os outros, sabendo respeitar o limite de cada um, incentivando nos momentos de dificuldades e que a nossa vida é como uma trilha: teremos trechos com poucos obstáculos e outros quase intransponíveis, mas que devemos sempre seguir em frente para vencê-los”, ensina.

Amadurecendo a ideia com a família

Amadurecendo a ideia com a família

Com 56 anos de idade, 40 dos quais vividos dentro do motocross, Guilherme “Gui” Lima é um ex-piloto que passou a sua paixão para os filhos Marcello “Ratinho” Lima e Eduardo “Dudu” Lima. Os meninos abraçaram a causa com tanto compromisso que há vários anos, ambos são pilotos profissionais e ganham a vida competindo em campeonatos no Brasil e no exterior.

“Eu competi durante 12 anos e acabei influenciando o Ratinho a andar, que começou a andar na cinquentinha. Depois veio o Dudu, que ganhou sua primeira moto no seu aniversário de 4 anos. Foi o início de tudo”, relembra.

E os meninos herdaram não só o gosto por pilotar, mas também, o talento: no ano seguinte, ambos já eram campeões paulistas de motocross.

Gui Lima reconhece hoje, que no início da carreira do filho mais velho, o cobrou bastante, mas que, amadurecendo, passou a equilibrar melhor a vontade de ter filhos campeões e a tolerância.

“Com o Rato eu corria junto e como ainda era competidor, tinha aquela adrenalina muito alta em dias de prova, acabei cobrando mais e o Dudu chegou com outra referência, pois já tinha vivido a experiência de mini motos com o Ratinho, mas à medida que fui amadurecendo, passei a encarar esta questão sob uma outra ótica, mas sempre buscando fazer deles campeões e isso aconteceu, pois eles foram campeões estaduais diversas vezes, campeões brasileiros, o Ratinho foi campeão Latino-Americano e isso para mim é um grande orgulho”, analisa Gui.

Atualmente, o Dudu está competindo no México, enquanto que Marcello Ratinho aguarda o início dos campeonatos no Brasil.

“É e foi muito bom estar com os meninos no esporte, pois estamos sempre juntos, viajamos juntos, enfrentamos as dificuldades juntos e isso sempre nos fortaleceu e se eu tivesse de voltar no tempo e escolher, eu faria tudo de novo”, encerra Gui Lima

Esperamos que tenha curtido este artigo. Se você tiver dúvidas ou sugestões, mande sua mensagem que sempre é um grande prazer trocarmos ideias com você.

Um grande abraço e até nosso próximo encontro.

André Ramos é formado pela UNESP de Bauru e atua como jornalista especializado em motos desde 2003. Fez assessoria de imprensa para a  Federação Paulista de Motociclismo e passou pelas redações das revistas Dirt Action, Motoaction, Pró Moto, Moto Adventure, além de já ter desenvolvido trabalhos para Webmotors, Revista Riders, Moto Premium e para as marcas Rinaldi, Kawasaki e Polaris, entre outras.

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