Manutenção preventiva off road: como e quando trocar as peças da moto de trilha?

Manutenção preventiva off road: como e quando trocar as peças da moto de trilha?

A gente tem certeza de que não precisamos vir aqui falar o quanto que o motociclismo off-road é uma incrível e saudável fonte de diversão, afinal, além de nos proporcionar uma atividade física – o que naturalmente nos convida a termos melhores hábitos –, ele nos coloca em contato com a natureza e nos ajuda a criar círculos de verdadeiras amizades, elementos que são excelentes aliados no combate ao sedentarismo e à depressão.

Entretanto, para que você possa aproveitar ao máximo os benefícios desta prática, é preciso estar atento a dois aspectos de suma importância: os cuidados com o seu corpo e os cuidados com a sua moto.

Para tratar do primeiro, tivemos o suporte de um dos maiores especialistas em preparação física de pilotos, o educador físico e fisiologista Roberto César de Oliveira, que além de mestre em Ciências pela Unifesp, é certificado pela Gary Semics Motocross School, de Ohio (EUA) e autor do livro “Personal Training – uma abordagem metodológica”. 

Quanto ao segundo, fomos atrás de uma outra referência nacional a respeito de manutenção preventiva off-road e preparação de motos de competição: Mauro Faucon, o Maurinho.

Ele começou a mexer com motos de corrida em 1985 e desde então, nunca mais parou: foi mecânico da equipe Amparo/Hollywood, onde trabalhou com as lendas Rodney Smith e Kenny Keylon, além de ter preparado ao longo de todos estes anos as motos dos maiores nomes do motocross e do enduro brasileiro e prestar consultoria para equipes oficiais de fábrica quanto à motores e suspensões. 

Maurinho é uma sumidade, manja muito e nos traz aqui suas orientações para que sua moto esteja sempre tinindo e preparada para enfrentar todas as encrencas do mundo off-road.

Como costumamos frisar, o Manual do Proprietário da sua motocicleta é o seu maior aliado:  lá estão especificados todos os intervalos de tempo que devem ser obedecidos para que as manutenções preventivas periódicas devam ser realizadas, mas como muitos não os lêem, ou então, compram motos usadas que não vêm acompanhadas deste livrinho, a gente foi atrás de oferecer um guia para que você não sofra prejuízos que podem ser evitados com o conhecimento destas informações.

Sim, afinal, sua parceira de aventuras precisa receber um talento de vez em quando para continuar funcionando sempre da melhor maneira possível. 

Uma moto de trilha/enduro é submetida a condições de uso bastante agressivas e por causa disso, motor, suspensões, relação, pastilhas e rolamentos acabam sofrendo um desgaste muito intenso, o que requer atenção quanto à realização de manutenções preventivas que evitam que as peças se danifiquem, causando prejuízos maiores e estragando o seu rolê e dos amigos.

É importante ressaltar que este artigo foi pensado e escrito focado no trilheiro e não no piloto profissional ou mesmo no piloto de motocross, aplicações que diferem muito entre si, tanto quanto à concepção dos motores das motocicletas, quanto à maneira como são utilizadas.

Diferenças na manutenção preventiva off road

Diferenças na manutenção preventiva off road

Existem dois tipos de manutenção preventiva que uma moto off-road deve receber: superficial e a intensiva.

Manutenção superficial

A manutenção superficial pode ser feita pelo próprio proprietário, pois não requer conhecimentos de mecânica mais elaborados.

Esta manutenção começa com a lavagem da moto no pós-trilha, ocasião na qual o dono da moto deverá também limpar e lubrificar o filtro de ar e checar:

  • desgaste das pastilhas/lonas de freio;
  • checar espessura do(s) disco(s);
  • nível do fluido do freio a disco e da embreagem hidráulica (quando assim for);
  • checar nível do fluido de arrefecimento no radiador;
  • checar folga da embreagem;
  • fluidez da movimentação dos cabos (acelerador e embreagem);
  • estado dos rolamentos das rodas, da caixa de direção e da balança/link;
  • nível do óleo do motor;
  • lubrificação e folga da corrente;
  • estado dos tacos (gomos) dos pneus;
  • checagem dos dentes da coroa e do pinhão;
  • reapertos dos principais parafusos da moto (rodas, motor, guidão/mesa, manetes, coroa);
  • checar estado dos guias de corrente (saboneteira traseira e da balança);
  • checar tensão dos raios;
  • checar estado de funcionamento de lâmpadas do farol e lanterna traseira;
  • checar eventuais cortes/rasgos nos guarda-pós das bengalas;
  • checar eventuais vazamentos de óleo nas bengalas e juntas do motor.

Manutenção intensiva

Em relação à manutenção intensiva, esta relaciona-se a ações que envolvem o domínio de conhecimentos e habilidades maiores por parte de quem mexerá na motocicleta e por isso, recomenda-se que, caso não tenha tais conhecimentos, habilidades e ferramental, que encaminhe sua moto ao seu mecânico de confiança.

E quem irá orientar sobre o momento em que se deve realizar este tipo de manutenção preventiva (intensiva) é um equipamento de suma importância: o horímetro. É este pequeno rolinho digital que irá marcar a quantidade de horas que sua moto passa funcionando e lhe indicar o momento certo de levar sua motoca para o estaleiro. 

Sem a instalação deste ítem, nada do que for escrito aqui valerá para você, afinal, todas as recomendações são baseadas em cima de intervalos de horas.

Motores

Motores

Embora atualmente as motos de trilha/enduro sejam desenvolvidas a partir de motos de cross, estas possuem um motor bastante diferente, segundo explica Maurinho. “Os motores de uma moto de cross e de uma de enduro só são parecidos por fora, pois internamente são muito diferentes, pois as propostas de uso são outras, e com isso, as folgas são maiores, os motores são menos taxados, as relações são mais elásticas e o uso feito pelo piloto é diferente”.

Como assim, diferente? Vamos aos fatos.

O motocross é uma modalidade marcada pela explosão e pelo ritmo extremamente intenso durante um intervalo de tempo relativamente curto (as baterias costumam durar 30 minutos mais duas voltas nas provas oficiais e este número cai para baterias de 15 minutos mais duas voltas em provas menores). 

Já na trilha ou mesmo em provas de enduro, o piloto fica muito mais tempo sobre a motocicleta (às vezes, 7, 8, 9 horas pilotando), mas o acelerador vai à sua abertura máxima com uma frequência muito menor quando levamos em conta o tempo em que o piloto passa acelerando, já que nas trilhas, um motor explosivo acaba atrapalhando na superação dos obstáculos.

Mas antes de entrarmos no méritos dos intervalos de tempo, é preciso esclarecer que quando falamos sobre motores, há dois universos distintos aqui: os dois e os quatro tempos.

Até o início dos Anos 2000, os bons e rápidos motores dois tempos reinavam no universo off-road, afinal, graças à sua concepção simples, ofereciam alta capacidade de rotação, subida rápida de giros e uma manutenção relativamente simples e barata.

Entretanto, com o advento dos poderosos e mais duráveis quatro tempos, este tipo de propulsor rapidamente passou a dominar o motociclismo off-road. No começo, pela pura falta de informação, muita gente sofreu pesados prejuízos, pois na época, acreditava-se que estes motores não precisavam sofrer manutenção preventiva, mas hoje, isso já caiu por terra e ninguém mais deixa de encostar sua motoca na hora certa para dar aquele talento.

Levando em consideração estes dois cenários (motores dois e quatro tempos), o Maurinho montou a tabela abaixo que vai orientar o piloto trilheiro mediano sobre quando efetuar a abertura dos motores de suas motocas:

4 Tempos

250 100 horas (parte de cima) + 60 horas (motor compl.)
350/450180 horas (parte de cima) + 100 horas (motor compl.) 

2 Tempos

12560 horas (parte de cima) + 30 horas (motor compl.)
250120 horas (parte de cima) + 60 horas (motor compl.)

Média de custos (peças inclusas)

4 Tempos: R$ 6.000 a 6.500 (parte de cima)

2 tempos: R$ 2.500

Relação

Relação

Maurinho explica que a troca preventiva da relação secundária da motocicleta vai depender das condições de terrenos onde você andou com ela

Se o uso tiver sido majoritariamente no barro ou na areia e o piloto for mais expert, ou seja, se o piloto acelera mais, a troca é recomendada com 12 horas de uso. Agora, se o piloto for mais novato ou andar mais na manha, a troca deverá ser feita com até 20 horas de uso.

Já se o uso acontecer em terrenos mais secos, de terra batida, este período pode estender-se até 25 horas.

Suspensões

Suspensões

Você certamente nota o quanto as suspensões da sua motocicleta são exigidas no ambiente fora de estrada e são elas as responsáveis pela maneira como sua moto irá se comportar.

De nada adianta você ter um motor acertado para sua tocada se as suspensões da motoca estão detonadas. Sem o trabalho eficaz deste item da motocicleta, você vai sofrer muito no ambiente off-road e por isso, ter um conjunto de suspensões em perfeitas condições é fundamental.

“Independentemente de o piloto ser amador ou profissional, eu aconselho que a cada 25 horas ele encoste sua moto no mecânico de sua confiança para realizar a manutenção das suspensões da sua moto”, orienta Mauro Faucon. “Nessa ocasião, será preciso substituir o óleo das bengalas e checar retentores, bem como, substituir o óleo do amortecedor traseiro e substituir o gás do reservatório de resfriamento”, acrescenta o mecânico.

Média de custos

R$ 880 (Mão de obra, incluindo fluido e gás, sem peças que requeiram eventual troca)

Rolamentos

Rolamentos

Talvez muita gente não saiba, mas motocicletas off-road saem de fábrica com os rolamentos sem qualquer tipo de lubrificante. Assim, caso você nunca tenha tido uma moto off-road zero, é muito importante levá-la ao seu mecânico para que ele lubrifique os rolamentos das rodas antes de levá-la para o campo de batalha.

“Depois disso, não há um período pré-determinado que define o momento de abrir e trocar os rolamentos. O que vai te indicar isso é o surgimento de jogos (folgas) nas rodas.

Outro ponto importante aqui refere-se à tensão dos raios. Raios folgados ou quebrados levam à mais quebras de raios e isso pode deixar não apenas a moto instável, mas também, provocar um acidente. Portanto, na ocasião em que for trocar os rolamentos ou que perceba que os raios estão precisando de um talento, comunique ao seu mecânico.

Já os rolamentos presentes na caixa de direção, na balança e nos links do amortecedor traseiro já obedecem à uma recomendação de tempo de uso.

“É recomendável que este serviço seja feito entre 12 e 15 horas, caso a moto ande muito no barro ou na areia e em até 20 horas, caso o uso predominante dela seja no seco”, orienta Maurinho.

Média de custos

Caixa de direção e links: R$ 500

Embreagem

Embreagem

A embreagem é um dos itens mais exigidos em uma moto fora de estrada, afinal, é ela a responsável por transferir a força do motor para a relação secundária (corrente/coroa e pinhão), afinal, no off-road as acelerações repentinas são constantes e as subidas íngremes que exigem todo o potencial do motor estão sempre presentes.

Além disso, as altas temperaturas são um elemento agressivo a mais nesta equação, o que faz com que o conjunto de discos, campana e platô sejam consumidos em alta velocidade.

Não há um intervalo regulamentar que indique o melhor momento de efetuar a troca, mas se você percebe que sua moto “patina” ao soltar os dedos do manete da embreagem e o parafuso da regulagem já está no limite, não vá para a próxima trilha com a moto desse jeito: será certeza de você ficar na mão, estragando o passeio da galera.

Média de custos

R$ 300 (mão de obra)

E aí, o que achou deste artigo? Te ajudou?

Para aprender mais sobre manutenção preventiva off road e como fazer uma boa escolha na hora de comprar uma moto e equipamentos, acompanhe nosso blog.

Uma dica para manter a sua moto impecável para a trilha, confira o artigo: aprenda a fazer a calibragem dos pneus off-road

André Ramos é formado pela UNESP de Bauru e atua como jornalista especializado em motos desde 2003. Fez assessoria de imprensa para a  Federação Paulista de Motociclismo e passou pelas redações das revistas Dirt Action, Motoaction, Pró Moto, além de já ter desenvolvido trabalhos para Webmotors, Revista Riders, Moto Premium e para as marcas Rinaldi, Kawasaki e Polaris, entre outras.

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